Sobre o vexame da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014.

Crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada em 7 de julho de 1982, no Jornal do Brasil.

Perder, Ganhar, Viver

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo
perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos
verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados
inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na
bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de
festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para
a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de
bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o
jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o
último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e
dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor
dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de
desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o
gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção
controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um
do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e
nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os
candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes
roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições
divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que
levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das
eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas,
flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões
do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi
a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de
edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti
tanta coisa nas almas.

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos
preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é
afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória
estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no
mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão
constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das
vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o
indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de
detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo.
Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado
infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até
mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de
anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha,
terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na
mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito
haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do
difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto
roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não
trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do
espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente
ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de
perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para
igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar
em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas
outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou
adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real
contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da
vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que
jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a
evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e
de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto
Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o
que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por
tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê!
Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós,
mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um
lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que
o ano já está na segunda metade?

Sobre pmjunior

Profissão: Analista de Infraestrutura Senior Cargo/Função: Arquiteto de Soluções em Infraestrutura. Certificações: RHCI, RHCSA, RHCE, RHCVA. Habilidades: Gerência de Redes, Conf. de Roteadores e Switchs, integração de Sistemas Open-source entre outros. Descrição: Dedicado atualmente a área de Gerencimento de Projetos em Infraestrutura de TI e Modelagem de Processos. Profissional Certificado em Red Hat Enterprise Linux, Engineer e Virtualization Administrator. Sólida experiência na área de redes corporativas, com atuação em Empresas de grande porte há mais de 10 anos. Capacidade de liderança, habilidade de negociação e visão estratégica. Experiência na área de Gestão como assessor, especialista em equipamentos CISCO e integração de sistemas operacionais Microsoft Windowse Linux. Atuação como palestrante em Universidades sobre Virtualização, Consolidação de Servidores e Projetos Open-source com maior foco no Projeto Fedora. Ver todos os artigos de pmjunior

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